JERNÊ KNOWLES EM MEU PRIMEIRO PERFUME

Ele é poeta, ele é escritor. As palavras fluem em profusão banhadas por genuína (e intensa) emoção. Peço desculpas publicamente, querido Jernê, por ter pedido um "resumo" de tua história. Como sintetizar essa intensidade que pulsa em ti? Impossível! Tu és assim,  alma aberta e coração inteiro.
Com vocês o capítulo de uma vida de Jernê Knowles e sua paixão perfumística em

Meu primeiro perfume.

Um viver a partir de Cabotine de Grès

Perfume Cabotine de Grès, por Jernê Knowles

O dia não tinha começado bem, tudo parecia que ia dar certo, mas no final das contas nada dava certo, pelo contrário tudo ocorria de forma imprecisa naquele dia. O dejejum não fiz porque acordei atrasado, a lanchonete não tinha o café que eu queria, o patrão encontrou desajustes em tudo e decidiu que eu não sairia para o almoço porque precisaria de mim naquele dia mais do que nos outros, quando o sol está por se despedir com toda sua imponência recebo um telefonema, de minha irmã, avisando que na loja onde trabalha chegara a nova coleção da Ellus, Triton, e Coca-Cola, e que tinha certeza que eu gostaria de ver algumas peças porque elas se pareciam muito comigo. Confesso, que resisti, estava profundamente consternado com o perpassar do meu dia, que não tinha sido nada favorável a mim. Respondi no telefonema: hoje não dá para mim, uma outra hora passo por aí, e se algo tiver de ser meu, será. Não houve qualquer insistência no outro lado da linha, sendo encerrada a ligação e eu mais uma fez ficando pesaroso das ideias. A loja na qual trabalhava na época encerrou o expediente, e ainda no final do mesmo ouvi algumas afrontas ficando mais ainda depressivo, minha vontade era ir logo para minha casa e tentar dormir o mais rápido possível para que aquele dia medonho acabasse de vez. Como o expediente onde trabalhava terminava as 18 hs e a loja onde minha irmã trabalhava (a) encerrava (a) as 20 hs e fica no caminho de casa, decidi morrer de depressão vendo as peças da nova coleção que lá estavam. Entrei na loja cumprimentei a todos e fui em direção à vendedora que conhece meus gostos e consegue aturar minhas exigências há alguns anos, porém antes de alcançá-la cruzando o salão da loja, uma nuvem que pairava no ar permeou minhas narinas e atingiu todos os meus sentidos, os bons e os maus, os puros e os impuros, os perversos e os inocentes, causando alegria imediata em mim, hoje consigo associar àquela sensação o conceito de alegria. Segundo a definição do educador francês Snyders (1993, p. 9-10), a alegria é um ato e não um estado no qual nos instalamos confortavelmente, é “a atividade de passar para...” (continue
A alegria também é um ato na medida em que, através dela, “a potência de agir é aumentada”, um acréscimo de vida, fazendo o indivíduo se sentir como que prolongado, enquanto a não-alegria vai se restringir, se reduzir, se economizar, ficar de vigília ou entregar-se à dispersão. O que quero dizer com a fala de Snyders? Que ao sentir aquela fragrância maravilhosa eu decidi estar feliz, ser feliz, permanecer feliz, viver feliz, nem que fosse por aquele momento mas precisava estar submergido em alegria-emoção, visto que pessoas que tem inteligência emocional são otimistas (STEMME, 1996, p. 18). Nada mais natural do que eu viver a nostalgia que sentia, e permitir que ela não saísse de mim naquele momento, uma vez que o meu dia tinha sido totalmente avesso àquele momento singular e portentoso o qual presenciava. Minhas atitudes? Não sei, acredito que correram para debaixo do balcão mais próximo, só sei que permaneci estático e com a língua congelada, além de tremores e alguns temores percebi que a sensação que vivia ia de encontro com meu coração e me fazia diferente naquele momento inefável. Percebi naquele exato momento que bem mais que as decepções, a alegria presente é que nos dar forças para desvencilhar das satisfações primitivas, para ir mais longe. É essencialmente através da alegria já conseguida que podemos pressentir que a etapa seguinte pode nos proporcionar mais alegria (SNYDERS, 1993, p. 30). Acredito que ninguém percebera minha mudança de comportamento instantânea, porque quando voltava à minha consciência tudo em volta parecia normal, pelo menos aos meus olhos. A vendedora super simpática me recebeu com a mesma simpatia e eu nem quis saber de coleção alguma, fui logo indagando: que cheiro é este no ar minha Amiga, por gentileza, diga-me?! Ela sorriu e respondeu: que cheiro não sinto nada! Insisti e a fiz perguntar a outras pessoas que confirmavam também sentir algo maravilhoso dentro da loja, um cheiro bom e diferenciado, ele continuou dizendo que não sabia, por um momento pensei em entristecer, mas do nada surge minha irmã que tem um nariz rigoroso quanto a fragrâncias e perguntei o mesmo sobre o tal bom cheiro, ela prontamente respondeu: é o novo perfume da minha patroa, ela chegara recentemente de viagem e o trouxe nas malas, mas não sei o nome... Óbvio que no mesmo momento nomeei minha irmã a uma “Sherlock Holmes – A ressureição” a fim de descobrir o tal nome do perfume dono daquela fragrância que me despertava sentidos e emoções adormecidas. Devo dizer que o trabalho não foi fácil, porém ardiloso e comprometedor, pois me lembro que todos os dias eu questionava minha irmã se já tinha descoberto algo, e ela respondia: calma, não é como tu queres, minha patroa é cheia de desconfianças. Neste decurso sofria na esperança de saber/descobrir o nome de tal fragrância briosa que de forma singular mexia e se posicionava entre meu Espírito, Alma e Corpo.


O evento que relato nas linhas acima acontecera exatamente há seis anos, muito embora a minha real experiência com a sensacional fragrância que me inebriou e me permitiu estar diferente naquele final de tarde – início de noite tenha sido bem no início da década de noventa, precisamente não consigo lembrar o ano, mas aposto entre 1991 a 1994, ainda era um garotinho que amava cheirar tudo, sim eu disse tudo mesmo, porque cheirava o que era bom e o que não era bom. Lembro-me que certa vez cheirei um frasco de amoníaco com tanta intensidade que desfaleci por alguns minutos, loucura total de uma criança curiosa por cheiros e sensações, mas isso não vem ao caso nesta resenha. Ao entrar numa sapataria, ainda criança com minha mãe, depois de um sábado perambulando pelo centro comercial de minha cidade, eis que ainda dentro da sapataria sinto um cheiro diferente, sim, era o mesmo perfume que após mais de uma década me fez parar e refletir sobre a expoente alegria de ser tocado e realizado ao se permitir senti-la. Agora, imagine você que conseguiu chegar até aqui, nestas linhas, após ler parte da minha história sobre “Meu primeiro perfume...”, a sensação inexplicável que senti ao me reencontrar com um poder absoluto que estava adormecido dentro do meu subconsciente e após tantos anos emanar de uma memória que aspira por sensações prazerosas proporcionadas por aromas, cheiros e odores. Como tenho dito, minha vivência foi inexprimível e minha, somente minha, porque por não saber descrevê-la, tomava sobre mim toda legalidade e permissão de ser e estar naquele momento arrebatador e ao mesmo tempo fascinante. Considero ser meu primeiro perfume, aquele que para além de um aroma conseguiu a façanha de penetrar meu espírito colérico e ao juntar-se a ele mostrou-se belicoso dominando minhas incertezas e comprovando que ele seria meu e eu dele, pela magnitude de nossas experiências coadunarem numa só ideologia e caminharem numa linha de emoção enleada à razão de uma oportunidade original exclusivamente minha. Após minha irmã ter conseguido descobrir o nome do perfume que tanto me causava “frisson”, lembro-me como se fosse hoje ela desenrolando um papel que estava escrito o nome da minha felicidade engarrafada, ela me entregou o papel e ao abri-lo li Cabotine EDT de Grès, confesso que fui ao céu e voltei dez vezes consecutivamente de tanta alegria.
A partir da grande descoberta fui em busca ao tesouro e percebi que na minha cidade ele não vinha para as lojas já havia um bom tempo, mas tinha uns testers que resolvi experimentar para comprovar, e quando o apliquei foi decepção a primeira borrifada, jamais imaginei que perfume tinha saída, coração e base, imaginava que as notas lá misturadas fossem do início ao fim a mesma coisa, tivessem o mesmo comportamento, ledo engano, após algumas horas as Ameixas suculentas e secas de Cabotine se revelam ao que de fato são e vem às minhas narinas da forma como o conheci há muito tempo atrás. Felicidade completa, resolvi então ir à caça por ele em sites, resolvi pegá-lo em território internacional por conta do grande diferencial nos preços, não sabia nada sobre compras no exterior pela internet, foi quando conheci o senhor Mário Colombo[1] na Comunidade Fragrancex[2] no Orkut, que também faz parte da Comunidade Apaixonados por Perfumes, e gentilmente me ensinou passo a passo os caminhos de uma compra com sucesso no exterior pela internet, a todo tempo se importava e torcia comigo para que chegasse logo, muito obrigado senhor Mário... Após uns 35 dias corridos, Cabotine bate à minha porta e entra para assumir seu lugar que há tanto tempo deveria ter ocupado, mas que por decisão do destino chegava naquele momento, ou seja, no momento em que deveria mesmo chegar. Apesar da Maison Hermès ser a minha Casa do coração (tenho uma admiração excepcional pelo perfumista Jean-Claude Ellena), vivo uma relação fiel e intensa com Cabotine, não o dispenso para nada, considero-o minha segunda pele, meu rastro permanente, minha história, meu enigma, minha esfinge egípcia, devo gratidão ao Criador por tê-lo encontrado e com equidade e afetividade vou sempre tê-lo junto a mim, até que a indústria perfumística pretenda nos separar (e, #oremos para que isso NUNCA ocorra).
 
  
Um suspiro de Cabotine
Eu sou assim, parte de mim, esse sou eu, sou teu,
Meu amor por ti venceu, quase morreu...
Ainda que sucumbisse, a vida, o Criador por meio de oportunidades,
A mim ressuscitou, ocasionou nosso encontro,
Restaurando a alegria, revelando-me sua real autoria.
Nosso conto deveria ser assim, um estopim para a realidade,
Pois de emoção ao te perceber experimentei a acuidade,
De um momento esporádico, atual, sensacional...
Preciso dizer algo mais? Olho para trás e te vejo numa alegria que me compraz.
Desejo realizado, vontade vivida, permissão necessária, Amor da minha Vida,
Cabotine, para mim, só o que Eu sinto ao certo te define.

39 comentários :

  1. Amei o texto do Jernê, nunca senti esse perfume, mas agora vou correndo atrás de um né? rs...rs..
    Parabéns a este blog lindo!

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    1. obrigada, querida...fico muito feliz com a tua presença. bjs

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    2. Renata, corre e viva Cabotine! Agradeço por ter gostado! Bjs!!!

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  2. Nossa! Que inspiração, que declaração de amor a um perfume! Jernê, você é incrível e me inspira admiração! Adoro as sextas, por conhecer tantas histórias que nos aproximam, nos fazem íntimos sem ao menos nos conhecer... Obrigada, Dâmaris!

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    1. fico sonhando com sextas ao vivo e em cores....imagine um super encontro, Diana? Que delícia seria ouvirmos essas histórias pessoalmente?

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    2. Ô minha linda, e vc que me acaba com suas resenhas do céu lá no A louca dos Perfumes! Então estamos quites. [risos]...

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    3. Já quero me encontrar numa 6ª feira com todas vcs e conversar até adentrar o sábado sobre perfumes! :*

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  3. Meu Jesus, que coisa linda!!!! #morri

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    1. #mijei e estou #enterrado...

      Bjs 1000 em vc, obrigado!

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    2. Dâmaris vc está certa, paixão define!

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  5. Compenetrada suguei cada palavra desta história fascinanate...viajei...sofri junto...alegrei meu coração...senti seu aroma...tão sublime e encantador. Como perfumes podem nos transportar a outro mundo ou lugar, obrigada Jernê, por ter dividido comigo seu encontro de amor...que inspiração...que poema lindo...estou em êxtase!!! Feliz por encontrar mais uma pessoa que tem um dom precioso...faz nos viver intensamente cada palavra lida e sentir a vibração do amor aos perfumes. Parabéns!
    Um beijo carinhoso a ti e a minha querida Dâmaris.
    Malú

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    1. Obrigada, querida....em breve será a tua crônica! ;) bjs

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    2. Malú, fico feliz que tenha se permitido viajar na paixão entre Cabotine e Eu, mesmo que numa viagem alucinante, mas fiel e verdadeira merecedora de um encontro feliz e permanente.

      Ansioso para ler sua crônica! Bjs 1000 de carinho em vc!

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  6. E....somos outros.
    pós Jernê. Ninguém fica incólume depois de ler o que ele escreve.
    Como não amar?? Como não idolatrar essa maneira absurdamente visceral e ao mesmo tempo etérea que escreve?

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    1. Ele é intensidade e paixão em pessoa, não é Carla? Muito querido.

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    2. [risos]...

      Vc me rasga todo e me joga na medina minha Le Bain. #Enterrado de tanto sorrir aqui com seu comentário. Obrigado pela expressão fidedigna na escrita!

      E a Dâmaris só na "rasgação de seda", né?! Hehehehehe...

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  7. Só consegui um em dezembro, é o meu favorito, com certeza um dos poucos aos quais repetirei compra!

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    1. Um clássico, Vana....com características perfeitas.

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    2. Mais uma pra lista dos que amam esta joia! Hehehehehe...

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  8. Resenha maravilhosa! Já to de olho em um; mas tenho que me conter, pois já tenho uns à caminho.
    Laís Santos

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  9. Jernê é um algodão doce, fofo como nuvens e doce como açúcar, pessoa que vem pra alegrar e colorir o mundo. É um poeta e uma pessoa linda demais. Ler o que ele escreve é sempre uma alegria profunda.
    E eu, não sei como me demorei tanto para me encontrar neste blog maravilhoso, por onde andei?
    Parabéns Dâmaris, teu blog é uma delícia!!!
    Jernê, vc é um luxo!!!

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    1. Que querida vc!! AMei tanto teu comentário!!!
      Obrigada! bjs

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    2. Meu Deus, quanta delicadeza na escrita, Ivis!

      Vc que é um doce que além de amar perfumes como eu, ama também os felinos... É vibe pura, de cabo à rabo! Bjs em vc todinha!

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  10. mas que ideia fantástica esta de dedicar ao perfume preferido um poema. :)

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    1. Totalmente apaixonado, não é Amana? :)

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    2. Amana, que ótimo que gostou da ideia!

      Faça um do seu perfume preferido e mostre-nos!

      Bjs! :*

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  11. Meu Deus do céu! Quase morri quando vi tudo isso aqui... Ainda estou atônito, perplexo diante da lindeza que a Dâmaris transformou parte da minha história de afeto eterno com Cabotine. Nada de se desculpar minha Vida, eu é que fui inflexível quando vc gentilmente pediu para sintetizar, porque cá entre nós, sínteses não são muito minha praia, apanhei e apanho até hoje por conta disso, mas isso é outra história...

    Peço perdão a todas as pessoas que leram e ainda lerão este texto, por ele ser cansativo e demasiado, mas como disse acima, ele deveria ser desse jeito, senão...

    Cada palavra, cada expressão, cada entusiasmo de quem leu e comentou expondo sua reação me fez ir do céu a terra e pairar sobre a cereja do bolo de chocolate, como dizem por aí [risos]...

    Villa (Dâmaris), obrigado por tudo. Aqui é uma casa que me sinto bem à vontade, não sei como agradecer pelo espaço cedido, obrigado, muito obrigado!

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  12. Cabotine foi o meu primeiro perfume importado. Ganhei da minha mãe e gosto dele até hoje. Recentemente experimentei o Cabotine Gold e, por coincidência, estou saindo hoje para comprá-lo.Realmente é difícil vê-lo nas prateleiras.Considero seu preço justo.

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Grata pela compreensão.

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