Verão chegando... dias e noites que pedem novos cheiros! E o querido Ubiratan, comentarista convidado que já participou várias vezes aqui na vila - aceitou o desafio. É dele o post hoje contando quais são os seus TOP 10 perfumes para o verão!
Vem comigo ter dicas (com ótimas fotos) do que usar nesta estação de festas e férias.
Ha o calor! Cada vez mais presente em todas as estações do ano, ao menos do Sudeste para cima. Úmido, seco, com ou sem vento, ou chuva. Em terras do Cerrado, ele está quase sempre seco, abafado e com pouco vento. Mas deixemos as geografias para lá e vamos à pergunta que nossa anfitriã perfumada me fêz certo dia: quais são meus perfumes preferidos no verão?
Pergunta complicada. A etiqueta olfativa tem um mantra: “no calor do dia use cítricos leves, ou que remetam a cheiro de limpeza”. Outro: “durante o dia, cítricos. À noite, amadeirados”. Então ficamos assim? Está tudo certo? Não. Mais fácil do que normatizar as paixões é usar sempre na vida o eterno e nunca fora de moda bom senso. Com nossos perfumes não é diferente, pois amores e paixões são escolhidos, antes do clima, etiqueta ou sei lá mais o quê, com o coração.
Repetindo aqui e para sempre o meu mantra: “somos nós quem fazemos nosso perfume” e não o contrário, mostro a vocês meus dez escolhidos para o verão, ou para o calor, em ordem crescente de amor. Nem tão cítricos, nem tão leves, nem tão contidos.... Vamos lá:
10º lugar:
7 (Siete), Loewe. Quem gosta do cheiro de mirra? Ou daquele incenso das missas católicas? Este caballero español sai do vidro envolto neste véu. Antes, porém, lhe oferecerá uma maçã fugaz mas bem apimentada, que aos poucos se deita esfumaçante num leito amadeirado de vetiver e cedro. Mas calma: nada aqui pega fogo. Pode deixar que a refrescância do Cedro segura as chamas. A evolução é rápida e direta, sem muitas arestas e rodeios. Um ótimo amadeirado e incensado que projeta e dura bem no calor. Olé!!
9º lugar:
L’Eau d’Issey pour homme Intense, Issey Miyake. Em meu leigo nariz este perfume fica muito equilibrado e docemente elegante. Um dos (vários) flankers da versão original, da qual prefiro por ser mais condimentado e, com o perdão da redundância, mais intenso mesmo. Bastante cítrico, bastante aromático e muito fresco. Uma pitoresca Yuzu está presente na saída, mas infelizmente não consigo reconhecer, pois vem misturada no mesmo suco de outras laranjas e mexericas. Logo após passar esta onda inicial de cítricos, uma tsunami doce de especiarias explode no coração da fragrância, com muita noz moscada, cardamomo e canela, deixando por fim marolas calmas de âmbar. L’Eau d’Issey seria a cara de um dia nublado e úmido de verão, para se usar com camisa clara de linho, bermuda e sandália. Tudo muito cool....
8º lugar:
Make me fever gold, Mahogany. Falando em mar, acho que realmente o Mar de rosas existe. Nunca me detive muito em florais, e não sabia que algum dia gostaria...até ficar curioso com a resenha deste delicioso Mahogany num “certo Village” (sabem qual?). Borrifar a válvula do vidro dourado e quadrado (que poderia ser mais bonito, diga-se de passagem) é abrir comportas das quais sairão sem parar ondas e mais ondas de rosas delicadamente doces, verdes e amendoadas. Você será acalentado o dia todo por este mar. Entretanto, dizem os pescadores, o mar pode ficar de mal humor. E isso perigosamente poderá ocorrer nos dias quentes, com ondas passando dos limites e incomodando narizes alheios. Traduzindo: cuidado, ele projeta muito. Duas a três borrifadas são mais que suficientes.
7º lugar:
Givenchy pour homme, Givenchy. Conheço pouca coisa da casa Givenchy. Já tive Ange ou Démon (quero outro), e tenho Xeryus Rouge (pode devolver?). Pour homme foi uma excelente surpresa que ganhei de presente, que não conhecia e nunca ouvi falar. Aquele vidrão de tampa vermelha me pregou uma peça: antes de apertar a válvula, esperei vir um moleque sujo e atrevido, fumando cigarro e carregando nas mãos maçãs, pimentas doces e madeiras. Enviaram no lugar um distinto e educado senhor elegantemente cítrico e contido, de banho tomado e carregando na cabeça uma guirlanda de lavandas salpicadas de violetas. Ha, e ainda calçando sapatos de vetiver e cedro. Pronto, assim se resume esta obra prima. Entretanto, surpreendentemente no que possui de discrição tem de duração. O senhor é fiel, não te abandonará e não incomodará nenhum nariz. Pode crer.
6º lugar:
Déclaration, Cartier. O gentleman bem comportado e “respeitador” citado acima aparece aqui na sua versão sexy e mal intencionada. Declaration é para mim um ótimo exemplo do equilíbrio entre elegância e sensualidade (assim como Alien, de Thierry Mugler). Porém a sensualidade, aqui, é suada e “docemente suja”, mas ainda assim muito agradável e interessante. Tudo isso rende polêmicas com este perfumão, eu sei, pois não agrada a todos. Resumo desta delícia: um cítrico com saída amarga e doce, cheiro do sumo de casca de laranja, temperado com Alcaravia (a qual meu nariz sinceramente percebe tão só como cheiro de Cominho). No decorrer da fragrância, vá adicionando canela, zimbro, gengibre, pimenta, madeiras....couro.....sugestivo para algo?
5º lugar:
Índia misteriosa, Mahogany. Este foi meu primeiro Mahogany. Penso que seja da turma dos “ame ou odeie”. Primeiro comprei a loção hidratante (que se garante por si e dispensa perfume, de tanto que projeta e dura na pele), dei OK e passei então para o perfume. Misturebinha difícil de descrever. Só digo ser um floral-frutal verde, assabonetado, atalcado, mas fresco e com fundo amadeirado de sândalo. Lembra o cheiro daqueles sabonetes luxuosos que usamos somente em ocasiões especiais. Tem parente chique que vem da França: Eden. Índia misteriosa é delicioso, é praticamente único, é pouco doce e rende elogios. Gosto demais.
4º lugar:
Um Jardin en Méditerranée, Hermès. Jean Claude Ellena estava em seus dias de inspiração para criar esta obra de arte, um dos 4 perfumes da coleção “Jardin”. Para construí-lo, o criador, em seu estilo próprio, usou relativamente poucas notas, a mágica aconteceu, e o jardim foi guardado num vidro. Feche os olhos: você está deitado no solo de um pomar. São 7 da manhã, acabou de chover, a neblina ainda está presente, e alguns raios de sol brigam para atravessar as nuvens. Pegue um punhado de folhas de limão e flores de laranjeira, esfregue nas mãos e sinta o perfume...agora inspire o aroma verde, úmido e terroso vindo da grama onde está deitado. Por fim, o sol se abre, e uma lufada de vento fresco, quase frio, chega até você trazendo o cheiro levemente cortante e adstringente de figueiras e ciprestes italianos plantandos ao longe do pomar. Acorde do sonho: o jardim é assim. Simples e elegante, duradouro e cheio de classe.
3º lugar:
Eden, Cacharel. Como disse no Índia misteriosa, Eden se assemelha a ele. Mas não é igual. O Cacharel no estilo francês de ser, é menos alegre, mais contido, mais sisudo, mais verde e menos frutado do que o primo brasileiro da Mahogany. Como adjetivou muito bem a Dâmaris certa vez, Eden é “triunfal”, e um dos meus eleitos para celebrar ocasiões importantes da vida durante o dia ou à noite (aqui fica perfeito). Uso-o no calor sim. Porém, o vidrinho verde e de carinha inocente pede contenção francesa nas borrifadas, pois projeta muito e pode ficar invadir tudo e todos, me deixando com dor de cabeça e de mauvaise humeur, oui?
2º lugar:
Womanity, Thierry Mugler. Sou muito suspeito e parcial para escrever sobre este perfume. Temos um caso sério de amor. Poucas notas, muitos contrastes. O primeiro encontro com esse perfume é o momento de se criar por ele amor incondicional ou aversão repulsiva. Womanity explode inicialmente com uma nuvem melíflua e intoxicante de figo em calda. Creio ser este o momento da fragrância que provoca divergências. Para completar, lá no meio da nuvem vem servido o caviar numa bandeja de folhas de figo, tudo junto. Calma, ninguém vai sentir aqui o cheiro de anchova em conserva... e justamente num perfume concebido para homenagear a “comunhão das mulheres”? O caviar aqui é tão somente um acorde intensamente aquático, úmido e ozônico (nada de sal, por favor), persistente como a maresia das orlas praianas, duradouro e muito fresco. Costumo brincar que este seria o perfume de uma Sereia. Mas, como prega a lenda, cuidado no calor com o canto de Womanity. Ele te seduz a usá-lo mais que o necessário, causando desconforto e inconvenientes. Em tempo: homens, usem sem medo, nenhum de vocês se tornará Sereia com ele. É compartilhável. Relaxem, rs.
And the Oscar goes to...
1º lugar:
Terre d’Hermès, Hermès. Novamente o Ellena vem mostrar que com pouco se faz muito. Não conheço muitos perfumes da casa Hermès, mas percebo uma assinatura olfativa presente nos que já senti ou nos que possuo. Essa nota peculiar e que se repete nada mais é que: a laranja. Ocorre assim com Voyage d’Hermès, Un Jardin sur le Nil e Eau des Merveilles. E Terre d’Hermès não foge do que estou falando. Ele é limpo, de evolução direta, simples, e sem arestas. Saída muito cítrica. Mas calma: não é fresca. A laranja está lá, só que desidratada e com um amargo Grapefruit a tiracolo. Imediatamente o Vetiver vem afirmar seu território como um rei, acompanhado por dois cavaleiros fiéis em ordem decrescente de patente: um terroso Patchouli e um leve e resinoso Benjoim. Terre d’Hermès é um coringa chique, que vai ao ponto sem rodeios, muito elegante, muito projetante e que casa perfeitamente bem com dias escaldantes. Não sou baiano, mas diria: “Ô meu rei”!
Pessoal, espero não ter lhes cansado demais com o tamanho do texto. Gosto muito de falar, escrever e brincar com fragrâncias, cheiros e fungadas. Escrevendo a gente aprende e estuda, e estudando aprende a fazer escolhas cada vez melhores e mais inteligentes com nossos perfumes, que inundam anualmente o mercado com lançamentos aqui e acolá. Esses são meus preferidos no verão! E o de vocês?
Abraços para nossa anfitriã cheirosa, Dâmaris, e para vocês! Bom verão perfumado para nós.
Obrigada, mineirim de coração. "Bjo e pão de queijo". :)
E você - o que pretende usar no verão? Deixe suas dicas! Abraços perfumados
Veja também:
* Resenha Womanity Le gout du parfum
* Opium pour homme
* Make me fever gold

